D
iz-me, homen macambúzio,
como foste encontrar
numa terra calcinada
no meio de cacto e pedra,
esse poço profundo
de água tão pura a jorrar?
Diz-me, homen pensativo,
como foste despertar
por baixo do couro grosso,
por baixo da pele gretada,
essa ternura de bicho
que o homen esqueceu de matar?
No silêncio do oprimido,
na cisma do opressor,
nas palavras quebradas do louco,
nos olhos do animal,
trilhas da solidão humana,
antes do bem e do mal.
Fizeste coisas ruins
que te deram lucro
e não tiveste remorsos.
Se agadanhaste idéias
que te deram arrepio,
como acariciar a fêmea
com tuas mãos enormes e grossas?
Agora apaga a luz da sala
para sentir a sombra de Madalena
e para convir que tudo está fora de ti.
Os calcanhares duros como cascos
gretam-se, sangram...
monossilábico, gutural,
cabra, bicho.
Como são perigosas as palabras!
bonitas e perigosas
com seu poder de enganar.
A cachaça tira desforra
de inimigos invisíveis.
A autoridade invisível se impõe:
arreda o impulso
de rachar o quengo do opressor.
Melhor pensar pouco,
desejar pouco - obedecer.
Faltava apenas uma cama
para ser feliz
- igual à de seu Tomás da bolandeira.
Saltar um dia no lombo de um cavalo brabo
e voar pela caatinga
e andar entortando as pernas,
Perigoso é querer
que a palavra vire coisa:
perguntar sobre o inferno
a quem nunca esteve por lá.
Inferno deve ser lugar
de cocorotes e puxões de orelhas,
de pancadas de baina de faca.
Pára de esfregar as peladuras e foge
que a carga já te atinge nos cuartos.
Te arrastra até a raiz do juazeiro
e abre os olhos
que há uma grande oscuridão...
Deposi dorme
para acordar feliz
num mundo cheio de preás.
Ser um rato
e não querer ser um rato,
sendo o molambo
que a cidade puiu e sujou.
Como ajeitar as vértebras,
soltas,
presas por um fio?
A idéia é um prego,
entrando na cabeça.
A idéia é uma cobra
em cima da mesa.
E o passado é uma cunha explosiva,
penetrando no presente...
estilhaçando o tempo.
Um salto
a corda enlaçando
o pescoço do homen,
as mãos apertadas,
afastando-se...
E escorregar num tempo onde não existem horas,
de caras partidas e misturadas
na parede,
de olhos espionando,
de letras com cara de gente,
arregaçando os beiços
com ferocidade.
Mergulhar num tempo onde não existem horas
e convocar a multidão na parede
para deitar-se na cama.
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